• Clau Gazel

A professora de francês

Todo mundo conhece alguém que conhece uma professora de francês. Dica para cá e para lá. Após algumas trocas de e-mails e muitos telefonemas, cheguei até “A” professora de francês.

No telefone, sua voz era doce. Com sotaque e doce. Combinação perfeita? J’en savais rien. Os poucos minutos no telefone só foram suficiente para aguçar minha curiosidade e saber, no máximo, que ela morava nas redondezas de casa. Foi neste momento que o mito começou a ser criado.

Dentro de alguns dias, depois de uma noite mal dormida por conta da ansiedade com o primeiro curso de francês da vida, o mito bate à porta. Exatamente às 8 horas da manhã de uma terça-feira do mês de agosto de 2009. Respiro fundo e abro. Toda francesa e sem sotaque, ela solta um delicioso bonjour. Je suis Marianne. Menos mito e mais Deusa.

Então ela desembesta a falar. Francês, lógico. É a língua dela e é para isso que veio: nos ensinar – meu marido e eu – a falar francês em um ano ou menos.

Após a primeira aula, a cabeça girava, parecendo não ter espaço para tantas palavras novas, que se entrelaçavam com o vocabulário português. Depois, tudo foi ficando prazeroso, e, entre acerto e erro, risadas e mais risadas. Dos livros que lemos, dúvidas crueis sempre surgiam. Péter au lit… ça veut dire quoi?. E a Deusa de carne e osso chorava de rir antes de responder. Chorava e ria, numa atmosfera alucinante que é só sua. Péter au lit é soltar pum na cama, respondeu. E ria. E chorava. E ria.

Nunca fraquejou. Nenhuma palavra em português, exceto no dia em que contou uma ou outra encrenca que arrumou no metrô. Até isso ela faz com classe, com seu jeitinho especial. Aí é com sotaque, seu delicioso sotaque quando pronuncia uma palavra com “nh” ou  “~”.

Mas o melhor foi aprender de perto sobre a França, o seu país natal, esse que faz seus olhos brilharem. E o poisson d’avril, a coquille Saint-Jacques, os arrondissements de Paris que parecem um caracol, o litoral francês do qual nunca havíamos ouvido falar. As férias e mais férias na escola. A quarta-feira sem aula dos petits. Mirabelle, mirtille, clafoutis. Lelouche, Lindon e Adjani. Até da cerveja de cereja ela falou.

E assim seguimos durante 10 meses, os três, com tarefa ou sem tarefa feita, com ou sem susto na cama quando a campainha tocava logo cedo. Mesmo com um sono de doer, ela sempre foi “bienvenue“. E quando me perguntam como aprendi francês, a resposta é na lata: avec une amie française qui vit au Brésil. Ela que, como a heroína do quadro de Delacroix, encarna seu nome à perfeição. Marianne transpira liberdade. Marianne, a minha professora de francês. Marianne, mon amie. Marianne, ah, Marianne.


Delacroix_-_La_liberte_guidant_le_peuple

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