• Clau Gazel

Andaluzia 3: A certidão, a carteira e um pouco de erva buena






Com lágrimas nos olhos, estaciono o carro em Torvizcón. Não conheci meu bisavô, mas estar ali, na cidade dele, a cidade em que ele nascera em 1886, era algo muito especial. Tentava imaginar como ele partira, em meio aquelas montanhas distantes, rumo à Piracicaba, por volta de 1900. (Como partiram? Sabiam que nunca mais voltariam? Sabiam para onde estavam indo? E porque o Brasil?) Queria que minha mãe e minha avó estivessem ali comigo. Queria que sentissem o que eu senti, por um minuto ao menos. Ansiosa, com a cópia da certidão de nascimento de meu bisavô embaixo do braço, avisto a igreja, no topo do pueblo. Na primeira ladeira meu marido e eu já somos reconhecidos (os típicos turistas) e os locais nos oferecem pousada, restaurante, vinho e melão. Agradecemos e resolvemos pedir indicação para subir até a “Iglesia.” Seguimos ladeira acima. Demos com o nariz na porta: a igreja estava fechada. Mas quando me dou conta, a carteira está pondo correspondências numa portinha ao lado da igreja. Ela nos explica que o padre está em outra cidade e, simpática, se despede. No desespero, falo com uma senhora na casa vizinha. Ela me manda procurar a Paquita, mulher de Agostin, que costuma ajudar o padre na igreja. E como acho a Paquita? A resposta é óbvia: pergunte a qualquer um, todo mundo conhece a Paquita. Então, apressamos o passo para encontrar a carteira. Ninguém melhor do que ela, a carteira Loly , para nos levar até a Paquita. Bingo. (Loly nos confessou saber exatamente onde moram cada um dos 700 habitantes de lá. Obviamente que esta pergunta técnica/logística foi meu marido quem formulou.) Em dois minutos estávamos frente a frente com a simpática mulher de Agostin. Meio sem graça, ela nos diz não saber como ajudar. Então, cogito lhe deixar a cópia da certidão de meu bisavô, e mais 2o euros para postar a certidão, caso a encontre. Tudo certo! E, esperançosos, damos adeus a Loly e a Paquita.


Ladeira abaixo rumo ao carro. Novamente nos oferecem pousada, restaurante, vinho e melão.


Resolvemos tomar um refrigerante e comprar o famoso doce de figo que indicavam em algum guia. Somos levados pela sorridente Maruja até a sua Pensión Moreno. Ela nos mostra sua produção caseira de vinho, no porão de sua casa, nos vende o tal doce de figo, postais e alguns recuerdos. Nos oferece um bolo de maçã, que, por sorte, não recusamos (seríamos estúpidos se recusássemos). Divino. Ela tentou me ensinar, mas em espanhol, difícil….até mesmo porque nunca seria igual, não igual ao dela, não igual ao que comi em Torvizcón.


Então, com um sorriso ainda maior nos lábios, ela nos diz: Vou lhe dar um pouco de “erva buena”. Quer um pouco de “erva buena”, não quer!?! Eu e meu marido nos olhamos …. curiosa, mas com algum receio, digo que sim. Ela some. Silêncio. Ela ressurge. Ela me diz que é para colocar em cozidos, em carnes, para preparar ensopados. Ufa!!! Ela aproxima um saquinho plástico do meu nariz: menta, a mais pura menta! Mas não a que conhecemos aqui no Brasil, não a nossa hortelã. É erva buena! O saquinho está aqui em casa … talvez eu crie coragem de usar. E a Igreja, a Loly, a Paquita, o vinho, o melão e o pueblo de 700 habitantes estão na minha memória, para sempre! (assim espero)



O pueblo

As ruelas da cidade




Flores e mais flores




A porta do padre

Maruja e seus vinhos



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