• Clau Gazel

Quando menos é muito mais: o restaurante de um prato só

Surpresa: prazer inopinado que nos causa a vista de pessoa ou coisa agradável, com que não contávamos (definição do Michaelis). Como é bom ser surpreendido. Não que eu esperasse pouco do Bistro L’entrecôte de ma Tante, restaurante do francês Olivier Anquier. Pelo contrário. Li na Folha de São Paulo há cerca de um mês que os chefs Benny Novak (Ici Bistrô, Tappo e 210 Diner) e Raphael Despirite (Marcel) gostam de comer a batata frita de Olivier Anquier. Indagado acerca da receita, Anquier disse não revelar o segredo para preparar a iguaria. Bingo. Luz vermelha acesa e piscando no meu cérebro: L’entrecôte de ma Tante, L’entrecôte de ma Tante. Logo eu, que nunca peço batata frita. Mas já experimentei a do Beny Novak, no 210 Diner, e é de matar, tal a crocância das benditas. E a do Fifties, também elogiada pelo Benny, me agrada bastante. O duro é aguentar os adolescentes que frequentam a lanchonete da Vilaboim. Mas isso é outro assunto.

Lá fui eu, como um soldadinho comandado por um cérebro louco em busca de serotonina. Lindo. O restaurante é lindo. Mas estou tensa. Sou convidada a aguardar no bar. Mal consigo sentar. Estou exatamente igual a um bebê de colo que começa a ter firmeza para ficar de pé. Física e mentalmente: meus joelhos não dobram e a ansiedade atinge níveis estratosféricos. Minha mesa fica pronta. Ufa, parei de suar. Sim, estou sozinha, respondo enquanto penso: ainda bem, porque ninguém é obrigado a aguentar essa minha loucura.

Anquier entra no restaurante e é só sorrisos. Casa cheia. Travessas de batata-frita circulam no salão. Aceita mais? A garçonete perguntou para a mesa do lado se queriam mais batata! Escutei direito? Mais batata?!?!?! Me falta maturidade para estar aqui. Anquier vem à minha mesa, para comunicar que sim, posso fotografar. Explico porque estou ali, a reportagem na Folha, a receita secreta, os elogios tecidos pela minha cunhada cujo paladar não é fácil de agradar. Sereno, ainda com sorriso nos lábios, ele diz que não vou me arrepender.

Chega a saladinha verde, exatamente como na França: tempero delicioso, acho que com mostarda Dijon, um pouco de nozes picadas. Deliciosa. O garçom pergunta como quero o ponto da minha carne. Como vocês sugerem? Ao ponto, ele diz. Isso, ao ponto.  Eis que chega, o Entrecôte de ma Tante. A carne vem realmente ao ponto, é só olhar: ela não nada em sangue, mas está com a cor viva, rosada. Cansei de ir em lugar especializado em carne, pedir ao ponto e  vir  pra lá de bem passada. Apelidei de “p.c.”, picanha cinza. Sem mais devaneios. A carne é bem macia e seu molho, divino! Apimentado e salgado na medida certa. Acho que tem pimenta verde. Sei lá, e não importa. É surreal. E então, esfrego as batatinhas fininhas e crocantes no molho e levo uma garfada caprichada à boca. Meu Deus, essa tante (tia, em francês) do Olivier, Nicole, deveria ser canonizada. Não encostei no saleiro ou no pimenteiro. Passa a garçonete e digo sim, aceito mais batata. E no auge do prazer, toca  Piaf no rádio. Acho que tocou. Eu ouvi. L’amour, l’amour. E tudo fica muito claro para mim: o segredo bem guardado, a decisão de servir um único prato,  a receita de família, a paixão pela culinária, o elogio de Benny e o sorriso  persistente de Anquier. Auto confiança. Valorização do prazer à mesa. E ele vem até mim: e aí? Sem palavras,  digo eu. Ele balança a cabeça, positivamente. Mal sabe ele quanto tempo eu não ficava assim, de queixo caído. Comeria esse prato duas vezes por semana. E na mesa ao lado pediram sem o molho. Que desperdício. Quase pedi o molho deles num potinho para levar para casa. E vem a mousse de chocolate perambulando pelo restaurante, num pote tamanho família. Penso de novo na minha falta de maturidade: vou pedir para o garçom parar na primeira colher. Na hora “h”, não consigo. Duas colheradas gigantes de Royal de Chocolate. Macia, leve e nada enjoativa, ao contrário do que se vê por aí. Cafezinho e acabou. E então, com um sorriso no rosto igual ao de Anquier sigo feliz para casa, tendo compreendido exatamente o alcance da máxima “menos é mais”…. muito mais.


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