• Clau Gazel

Um turbilhão chamado Niki de Saint Phalle

Ao por os pés na exposição que está no Grand Palais desde 17 de setembro, já é possível ouvir o intrigante e apaixonado discurso de Niki de Saint Phalle (29.10.1930/ 21.05. 2002):

“Eu gostaria de me aprofundar no sentido poético. De me expressar verdadeiramente  à fundo… e é assim, em me expressando que, automaticamente, eu exprimo a situação da mulher no mundo atual … tanta coisa foi feita pelos homens para tentar esquecer o fato  de que a mulher pode criar… eu sou obssessiva pela criação. “

Logo na segunda sala é exibida uma das entrevistas dadas pela artista auto-didata, que fez da arte sua principal arma na luta pelo reconhecimento do papel da mulher no mundo. E é este um bom começo para se entender a obra de Catherine Marie-Agnes de Saint Phalle, apelidada Niki. Seu discurso e sua vida pessoal são elementos indissociáveis  na composição do monumental trabalho de uma das primeiras artistas da época a colocar a mulher em evidência, seja ela retratada como vítima ou heroína.

Sempre com atitude provocadora, Niki decidiu desde muito cedo romper com as amarras sociais e, sobretudo, as amarras familiares. Originária de uma família rica dos arredores de Paris, a artista mudou bem jovem para New York, onde estudou em um colégio católico. Aos 18 anos, fez alguns trabalho como modelo e casou-se aos 19 anos de idade, com Harry Mathews, escritor americano. Aos 21 anos de idade já era mãe e aos 22, mudou-se com o marido e a filha para Paris. Foi aos 23 anos  que, após ser diagnosticada com esquizofrenia, a pintura surgiu em sua vida.


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Auto-retrato (1958/1959 – Spregel Museu de Hanover)

E foi inserida no cenário intelectual e artístico europeu que Niki se viu salva não apenas das sessões de eletrochoque, mas também de tudo aquilo que sua família e a sociedade haviam reservado para ela, como mulher:

“Eu não me parecerei com você, mãe. Você aceitou o que te foi transmitido por seus pais: a religião, os papeis masculino e feminino, as ideias sobre a sociedade e segurança.”

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Detalhes de “partos”: colagem de objetos e pintura (1964)

Em 1956, pouco depois do nascimento de seu segundo filho, Niki conheceu Jean Tinguely, que se tornou seu companheiro 4 anos depois. Tinguely, conhecido por suas instalações que são verdadeiras “máquinas de não fazer nada”, como declarou o próprio artista, exerceu um papel fundamental na obra de Niki. Paixão, excitação e até uma espécie de competição entre ambos serviu como motor para a carreira artística de ambos. Em diversos projetos, como o monumental Le Paradis Fantastique, instalado em Montreal em 1967, o casal trabalhou lado a lado.

Durante os anos 60 Niki realizou várias obras que não se classificam como simples pinturas. Em telas brancas eram pregados alguns objetos contendo tinta que, ao receber tiros de carabina, transformavam a obra, que recebia então alguma cor. Foi assim que Niki integrou o grupo dos novos realistas.

Também foi durante os anos 60 que a artista começou a criar suas bonecas gigantes, as “Nanas”. Feitas em tecido, lã, gesso ou resina, elas começaram a viajar a Europa e, junto com elas o nome de Niki e seus protestos. Através de obras de caráter monumental, Niki conseguiu atingir o grande público. Assim foi em Estocolmo, com a gigantesca Nana HON. Após 18 horas de trabalho diário, Niki dá à luz  à boneca de 21 metros de comprimento, 7 metros de altura e 9 metros de largura. A gigante acolhia internamente o púbico, que a penetrava através de seu órgão genital. A obra construída especialmente para o pavilhão francês da Expo 67 foi mantida em segredo até o dia da inauguração, para evitar censura. Após 3 meses de puro sucesso, Hon foi destruída.


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E a partir daí, tantos outros projetos monumentais fizeram parte da vida da artista, como o Golem (Jersalém – 1972),  as Nanas Caroline, Charlotte e Sophie (Hanover – 1974), a famosa Fontaine Stravisky (Paris – 1983) e o incabado Jardins des Tarots (Toscana – início das obras em 1978).

Foi nessas obras gigantescas, monumentais que Niki explorou à exaustão as linhas curvas que, segundo ela, eram femininas; já as linhas retas, eram pertencentes ao universo masculino e, assim, não a interessavam. As gigantes Nanas foram um dos principais manifestos da obra de Niki: as mulheres no poder, para um novo mundo. Com suas cruvas, coxas grossas e barriga avantajada, mas ao mesmo tempo coloridas, dançantes e alegres, as Nanas representam as mulheres livres dos esteriótipos, sem, no entanto, perder sua feminilidade. As Nanas são as guerreiras de Niki; as guerreiras que a motivaram inclusive na luta pela igualdade racial.  Niki declarou: “Uma mulher no mundo dos homens é como um negro na civilização de brancos.”


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Niki faleceu aos 71 anos de idade e representa a grande artista feminista do Séc. XX, símbolo da luta contra as convenções sociais.

Pontos altos da exposição no Grand Palais:

-projeto cenográfico de Maciej Fiszer, que além de espaçoso, abusa com classe das cores;

– os 20 videos acerca da obra da artista, com entrevistas e exibições de projetos como Hon e Les Jardins des Tarots;

– as cartas e desenhos enviadas por Niki a Tinguely;

– as Nanas dançantes, que rodam sem parar.

Anote: Grand Palais – Avenue du Général Eisenhower – 75008; de 17.09.2014 a 02.02.2015 – qua/seg. 10h/22h; dom e seg. até 20h; ingressos 13 euros; metrô Champs-Élysées Clemenceau/linhas 1 e 13.

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