• Clau Gazel

VIAGENS DE CLAUDIA – Revista Elas e Lucros n. 11


Com lágrimas nos olhos, estaciono o carro em Torvizcón. Não conheci meu bisavô, mas estar ali, na cidade dele, a cidade em que ele nascera em 1886, era algo muito especial. Tentava imaginar como ele partira, em meio aquelas montanhas distantes, rumo à Piracicaba, por volta de 1900. Como partiram? Sabiam que nunca mais voltariam? Sabiam para onde estavam indo? E porque o Brasil? Queria que minha mãe e minha avó estivessem ali comigo. Queria que sentissem o que eu senti, por um minuto ao menos.

Ansiosa, com a cópia da certidão de nascimento de meu bisavô embaixo do braço, avisto a igreja, no topo do pueblo. Na primeira ladeira meu marido e eu já somos reconhecidos (os típicos turistas) e os locais nos oferecem pousada, restaurante, vinho e melão. Agradeço e resolvo pedir indicação para subir até a Iglesia. Sigo ladeira acima. Dou com o nariz na porta: a igreja estava fechada. Mas quando me dou conta, a carteira está pondo correspondências numa portinha bem ao lado. Ela me explica que o padre está em outra cidade e, simpática, se despede. No desespero, falo com uma senhora vizinha, pedindo ajuda. Ela me manda procurar a Paquita, mulher de Agostin, que costuma ajudar nas atividades da paróquia. E como acho a Paquita? A resposta é óbvia: pergunte a qualquer um, todo mundo conhece a Paquita.

Então, apresso o passo para alcançar a carteira. Ninguém melhor do que ela, a carteira Loly, para nos levar até a Paquita. Bingo. Loly confessou saber exatamente onde moram cada um dos 700 habitantes de lá. Em dois minutos estávamos frente a frente com Paquita, a simpática mulher de Agostin. Meio sem graça, ela nos diz não saber como ajudar. Então, cogito lhe deixar a cópia da certidão de meu bisavô, e mais vinte euros para postar a certidão, caso a encontre. Tudo certo! E, esperançosa, dou adeus a Loly e a Paquita. Ladeira abaixo rumo ao carro. Novamente nos oferecem pousada, restaurante, vinho e melão.

Decido comprar o famoso doce de figo que havia lido em algum guia e a sorridente Maruja nos leva até a sua Pensión Moreno. Ela mostra sua produção caseira de vinho, no porão de sua casa, vende o tal pan de higo, postais e alguns recuerdos (precisava trazer algo de lá para a família). Oferece bolo de maçã, que, por sorte, não recusei. Seria estúpida se recusasse. Era divino. Ela tentou me ensinar, mas em espanhol, difícil. Ë melhor mesmo, porque nunca seria igual, não igual ao dela, não igual ao que comi em Torvizcón.

Então, com um sorriso ainda maior nos lábios, ela me diz: “Vou lhe dar um pouco de erva buena .Quer um pouco de erva buena, não quer!?! Meu Deus, penso eu! Erva Buena?!?! Com receio, digo que sim. Ela some. Silêncio no ar. Ela resurge, com um saquinho plástico na mão. Ela me entrega e diz que é para colocar em cozidos, carnes e para ensopados. Ufa!!! Ela abre o saquinho, bem no meu nariz: menta, a mais pura menta! Mas não a que conhecemos aqui no Brasil, não a nossa hortelã. É erva buena! O saquinho está em casa. Talvez eu crie coragem de usar. E a Igreja, a Loly, a Paquita, o vinho, o melão e o pueblo de 700 habitantes estão na minha memória, para sempre! Assim espero.

Torvizcon fica num dos vales das Alpujarras de Granada, região que até a metade do século XX era isolada do resto da Espanha por montanhas de até 3 mil metros. Lá também ficam Bubion, Pampaneira e Trevelez, cidades praticamente dependuradas nas encostas das montanhas. Por aí, você já pode imaginar as estradas para chegar. Em um passeio de um dia é possível conhecer a região.

COMO CHEGAR À ANDALUZIA

  1. Há vôos diretos de São Paulo a Madrid. De lá, pegue outro vôo para Granada ou Sevilha.

  2. Separe de oito a dez dias e alugue um bom carro (air bag, freios potentes e com boa estabilidade), pois as curvas são de dar frio na barriga. Embora locadoras conhecidas mundialmente sejam mais caras, elas oferecem maior segurança ao consumidor.

  3. Visite Granada, Sevilha, Ronda e região, Tarifa e o Parque Nacional do Cabo da Gata. Esses últimos dois destinos são praias. Conheças as cidadezinhas!

  4. Para tapear (comer tapas) em Granada, sugiro fugir dos pontos turísticos e ir direto para a Plaza de la Pescaderia, nos bares Cunini e Oliver. Peça chope, e as tapas (maravilhosas!) são por conta da casa.

  5. Fique atento, pois no verão o calor é de doer. E permita-se fazer a siesta, pois ninguém é de ferro!

  6. Com 150 euros por dia é possível pagar hospedagem e alimentação para o casal. Para a diária do carro, reserve não menos que 70 euros.

  7. Sugestão de roteiro completo: Andaluzia


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