• Clau Gazel

VIAGENS DE CLAUDIA – Revista Elas e Lucros n. 09


Minha avó amassava o pão e meu avô batia a manteiga. Posso fechar os olhos e ver o movimento frenético das mãos dele, numa tarde de inverno, durante as férias em Águas de Lindóia. Imagine que são necessários de 10 a 15 minutos na batedeira para transformar 1 litro de creme de leite fresco em manteiga. E algumas horas depois, pão quentinho, com manteiga derretendo e café. Café para todo mundo, até para o neto mais novo que sequer tinha dois anos de vida.

Em dia de almoço de família, a mesinha da cozinha se abria e dobrava de tamanho e, em alguns minutos, a toalha estampada azul escuro estava coberta de fios gigantes de macarrão, recém-saídos da máquina. Era uma loucura porque todo mundo queria brincar um pouco com a tal máquina. Nós, as crianças, ficávamos com a parte de passar a primeira massa, que tira um pouco da sujeira das engrenagens.

Na mesma mesa também se cortavam os nhoques e, ali, eles descansavam. Minha avó cobria com pano de prato, para proteger de moscas e filhos, genros, noras e netos famintos e desesperados que comem nhoque cru! Ela dizia que daria dor de barriga. Dava nada! Era praticamente só batata, pouca farinha. O nhoque dela flutua de tão leve. É desses que não se encontra em lugar algum. É preciso coragem praa ir a um restaurante e pedir nhoque. Se bobear, depois de comer  você não levanta da cadeira, seu peso duplica. A propósito, não posso ser injusta. Há dois lugares em São Paulo em que o nhoque vale à pena: Café Toscano, em Moema, e Buttina, em Pinheiros.

Há pouco tempo, não sei se por obra do meu inconsciente ou da minha consciência, me vi programando uma viagem que trouxe tudo isso à tona, as lembranças desses sabores, aromas e afetos. Um certo dia em que, para variar, eu pensava o que seriam das minhas próximas férias, já que estaria sozinha, praticamente caiu do céu a reportagem sobre cursos de culinária de uma semana na Europa. E se era para fazer isso, pensei, tenho que fazer direito: o país é a Itália e o local, uma pitoresca cidade da Toscana, próxima a Florença.

Decidida, prometi comer de tudo. Antes, uma estadia preparatória em Florença: brusqueta no café-da-manhã (que delícia), entrada, primo piato, secondo piato, sobremesa no almoço e no jantar, e sorvete três vezes ao dia (fingia que eram florais, os efeitos são semelhantes!). Chegando lá, eu limpava o prato, ou melhor, todos os pratos. Um dos chefs não acreditava: exibia meu prato completamente limpo aos demais. E, me chamando de lado: “Claudia, você tem que experimentar tudo, mas não precisa comer tudo, ok?” Eu ri! Os ensinamentos católicos da infância foram mais fortes do que eu: deixar comida no prato é pecado!

Imagine. Você acorda às nove da manhã para aprender fazer o molho de tomate à moda toscana, e preparar dois tipos de nhoque. Depois de 4 horas de trabalho árduo na cozinha, lava as mãos e, enfim, coloca o avental de lado. Senta-se a mesa, olha para frente e vê tudo aquilo ali, ao seu alcance. O que você faria? Eu optei por mergulhar de cabeça no nhoque, meu prato predileto, com gosto de infância, com gosto de casa da vovó. Sim, comi quatro pratos! Neste dia, eu não fui a única. Se bobear, tinha aluno lambendo a travessa.

Teve também a farra do ravióli colorido. Mas o auge do curso ainda estava por vir. No penúltimo dia, uma programação diferente. Ao invés de fazermos o almoço, cozinharíamos para o jantar. E adivinha o cardápio? Pizza no forno a lenha.  E também faríamos cantutti, aqueles biscoitos de amêndoa durinhos, que acompanham o café em alguns restaurantes italianos (os italianos tomam com vinho de sobremesa).

Todo mundo pôs literalmente a mão na massa: misturou, amassou e esticou.

Enquanto isso, alguns golinhos de cerveja, para cá e para lá. A pizza: maravilhosa, a melhor que já comi! O cantutti: divino e fácil de fazer! As férias: inesquecíveis!

E na mala, algumas dicas preciosas da Toscana:

1. Para fazer o molho de tomate, não é preciso tirar a pele e a semente. Além disso, outros vegetais darão um sabor especial como, por exemplo, cenoura e erva-doce. (A receita completa está no meu blog: http://aviagemcerta.blogspot.com)

2. “Pizza se come com cerveja” foi a frase mais dita pela chef Sandra Lotti.

3. Creme de leite bom é creme de leite gordo, com 80 % de gordura!

4. Azeite de oliva extra-virgem e um bom queijo parmesão dão vida a qualquer receita italiana!

E mangia che te fa bene!


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