• Clau Gazel

VIAGENS DE CLAUDIA – Revista Elas e Lucros n. 14

Presentes de viagem: passe longe

Gastos com lembrancinhas, além de pesar em seu bolso, nem sempre agradam ou servem à pessoa presenteada

Poucas horas depois de desembarcar pela primeira vez em Buenos Aires para passar um feriado de quatro dias, já estava literalmente socada em uma loja de fábrica de malhas de lã. Preciso fazer um parêntese: é impressionante como as cifras exercem força sobre nossa mente. Se o produto é barato, encaramos sem ao menos questionar a real necessidade e conveniência de adquiri-lo naquele momento. Nos primeiros 20 minutos, depois de levar 50 cotoveladas de outros brasileiros desesperados, um a zero para a loja. Ou melhor, cinco a zero para a loja, pois eu havia decidido comprar cinco malhas de lã masculinas, para presentear os homens da família. Levei ainda mais 20 ou 30 minutos, pois precisava escolher as cores, e nem todas as cores estavam disponíveis em todos os tamanhos, e nem todos os tamanhos eram condizentes com as pessoas que seriam presenteadas, e, ainda, havia outra pessoa que estava segurando a manga da mesma malha que eu segurava. Chamaria a isso de guerra. Escolhi para o meu pai uma malha vermelha. Vermelha, não: marrom. Pensando melhor, terracota. Ou, de repente, ferrugem. A realidade é que nunca havia visto meu pai vestindo qualquer uma dessas cores. A única notícia que tenho do meu pai usando uma blusa vermelha remonta os anos 70 e advém de um boato familiar segundo o qual meu avô materno implicava com a camisa vermelha do meu pai. Coisa de rebelde ou revolucionário, pensava ele. O fato é que as malhas, na realidade, não tinham a cara de ninguém… Ou tinham a cara de todo mundo. Impessoais… Essa é a palavra!  Elas eram presentes absolutamente impessoais.

E agora vou direto ao ponto. Vale a pena se desdobrar para comprar presente para toda a família e para os amigos simplesmente porque criamos o dever de trazer lembrancinhas de viagem? É razoável perder horas de suas tão esperadas férias e sola de sapato à procura de presentes? Faz sentido sair comprando presentes simplesmente porque temos uma lista a cumprir?

Antes de começar a responder, vou esclarecer algo: adoro comprar e ganhar presentinhos de viagens! É uma demonstração de carinho deliciosa, por meio da qual quem presenteia declara que se lembrou do outro em momento e lugar especiais. Sem falar no imensurável prazer que é receber algo absolutamente inédito, made in qualquer outro canto do mundo que não o Brasil.

O que quero dizer é  que a busca de presentes não pode se tornar um martírio a ponto de atrapalhar sua viagem. Algo que supostamente é legal torna-se pura preocupação. Corre-corre no fim da viagem para completar a lista de presentes é prática mais comum do que se imagina.

Depois, qual é  o problema de comprar aquela fivelinha linda que você viu e é a cara de uma de suas amigas e acabar não trazendo nada para as outras, porque não encontrou nada que tivesse a ver. Por isso, eu aconselho: se você encontrar algo que efetivamente se relaciona com a pessoa a ser presenteada, ótimo. Ela ficará feliz e você também. Mas, se não rolar, tudo bem. Curta a sua viagem, sem ficar na paranoia da lista de presentes. E, quando sua irmã, amiga ou mãe forem viajar, encha o peito e fale com sinceridade: não precisa se preocupar! Com certeza, a viagem delas será mais leve.

Ah, sobre a malha vermelha-marrom-terracota-ferrugem: no mês passado, quase seis anos depois de sua compra, topei com ela absolutamente intacta no guarda-roupa da minha avó, que, diga-se por sinal, tem metade do peso do meu pai. Minha mãe, colocando a blusa em frente ao corpo, comentou: “Lembra dessa blusa? Ela não serve em ninguém!”. Lembro, oh, se lembro.

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